o silêncio no espelho

O racismo raramente começa com um estrondo; ele costuma se manifestar primeiro nas frestas, em “brincadeiras” disfarçadas e olhares condescendentes. Para a vítima, o primeiro impacto é a dúvida: “Eu ouvi direito? Isso é comigo?”. Esse questionamento interno gera um isolamento precoce, onde a dor é guardada a sete chaves por medo da incompreensão.

Matheus tinha quinze anos e uma paixão vibrante pelo desenho. Seus cadernos eram cheios de traços fortes, super-heróis negros com armaduras futuristas e paisagens urbanas. Ele gostava da escola, mas aquela transição para o primeiro ano do Ensino Médio no Colégio Alvorada estava trazendo um peso cinzento que ele não sabia explicar.

Naquela manhã, antes de sair, Matheus encarou seu reflexo no espelho do banheiro. Ajustou o cabelo crespo com os dedos, respirou fundo e tentou ensaiar um sorriso. Sabia que, ao atravessar o portão da escola, seu corpo e sua cor seriam alvos de leituras que ele nunca pediu para ter.

Na cozinha, sua mãe, Dona Sônia, preparava o café com o carinho de sempre. Havia um aroma acolhedor de pão quentinho. O pai, Seu Jorge, lia as notícias no celular. A dinâmica familiar era de profundo afeto e proteção, mas também de uma vigilância silenciosa. — Tudo bem, filho? Comeu pouco hoje — observou Sônia, tocando o ombro do jovem. — Só um pouco de sono, mãe — mentiu Matheus, forçando um sorriso para não preocupá-los. Ele guardou para si o comentário que ouvira no dia anterior, no corredor da escola, vindo de Gustavo, um dos garotos mais populares da sala: “Esse cabelo aí precisa de um cortador de grama, hein, Matheus?”. A risada dos outros ecoava em sua mente como um zumbido constante.

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